segunda-feira, janeiro 09, 2006

Hoje publico a parte I de um conto infantil que escrevi no ano passado...

"Parte Um
Salvador era um miúdo calmo e sossegado. Pequeno e franzino impressionava pelos seus olhos muito negros e brilhantes como quem está, mesmo quando alegre, sempre à beira de chorar. Os seus cabelos também muito escuros perdiam-se em ondas rebeldes e encaracolavam caprichosamente nas pontas, fazendo com que a sua mãe perdesse muito tempo e paciência a dominá-lo antes de o levar para a escola.
Nos dias de Setembro em que a escola se aproxima e as tardes ficam mais pequenas acontecia ver-se o pequeno Salvador profundamente aborrecido encolhido a um canto do quarto. Os seus pais preocupavam-se e prontamente o tentavam animar brincando com ele e trazendo-lhe mais presentes. O seu rosto animava-se por momentos ao folhear um livro de ilustrações novinho em folha, ou carregando nos botões de um brinquedo a pilhas, mas logo o seu rosto se contraía e tudo se tornava novamente enfadonho. Às vezes Salvador tinha ideias na sua cabeça e empenhado pegava em papéis e tintas para levar a cabo os respectivos projectos, mas quando olhava à sua volta encontrava a sua ideia já transformada em brinquedo pelo que só lhe restava desistir e limitar-se a brincar. Na verdade nas paredes do seu quarto havia muitos desenhos e bonecos pendurados. Dos móveis transbordavam outros tantos bonecos, carros e jogos formando uma paleta interminável de cores.
Passavam-se dias longos, de tardes curtas e noites compridas e a tristeza andava sempre perto do rosto de Salvador como uma nuvem opaca. Um dia Salvador, pequenino, sentou-se num banco e apoiado no parapeito olhou longamente para o jardim sobranceiro à sua janela. O Outono espalhava já os seus matizes quentes pelas árvores e por todo o lado se respirava cor de laranja. O tempo ainda estava quente e pela janela via-se cair de vez em quando uma folha de uma árvore. No meio do ainda e sempre verde da relva, surgiam em pedra dois ou três sólidos bancos onde pousavam algumas pombas preguiçosas. Também havia uma fonte onde os pardais se banhavam e onde todas as pessoas podiam beber água fresca. Era de pedra, aqui e ali esverdeada pelo musgo, e tinha uma daquelas torneiras caprichosas que lançam a muitos metros de altura um repuxo divertido e de tal forma inocente que dá tempo a que se fuja antes da água cair.
Da rua vêem-se várias casas muito bonitas, umas velhas, outras novas, mas todas elas cheias de personalidade, decerto reflectindo a dos seus habitantes. Do rés-do-chão da casa mais nova, assoma o nosso Salvador de nariz colado ao vidro, desenhando pequenas figuras invisíveis na janela."

1 comentário:

Tinnus disse...

Tenho que dizer, que estou efusivamente à espera do próximo capítulo deste teu belo conto...